domingo, 31 de dezembro de 2006
Luz Ténue
Eu ontem vi-te...Andava a luz
Do teu olhar,
Que me seduz
A divagar
Em torno a mim.
E então pedi-te,
Não que me olhasses,
Mas que afastasses,
Um poucochinho,
Do meu caminho,
Um tal fulgor
De medo, amor,
Que me cegasse,
Me deslumbrasse
Fulgor assim.
Ângelo de Lima
sexta-feira, 29 de dezembro de 2006
quinta-feira, 28 de dezembro de 2006
Vem Comigo!
Lembro-me agora que tenho de marcar um encontro contigo, num sítio em que ambos nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma das ocorrências da vida venha interferir no que temos para nos dizer. Muitas vezes me lembrei de que esse sítio podia ser, até, um lugar sem nada de especial, como um canto de um café, em frente de um espelho que poderia servir de pretexto para reflectir a alma, a impressão da tarde, o último estertor do dia antes de nos despedirmos, quando é preciso encontrar uma fórmula que disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É que o amor nem sempre é uma palavra de uso, aquela que permite a passagem à comunicação mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale, de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio ser, como se uma troca de almas fosse possível neste mundo. Então é natural que voltes atrás e me peças "Vem comigo!", e devo dizer-te que muitas vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde, isto é, a porta tinha-se fechado até outro dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que á também a mais absurda, de um sentimento; e, por trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos encontrar, que há-de ser um dia azul, de Verão, em que o vento poderá soprar do Norte, como se fosse daí que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas, que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo das pétalas, o vermelho do Sol e o branco dos muros."Carta (Esboço)", Nuno Júdice
terça-feira, 26 de dezembro de 2006
Regresso
.
Regresso devagar ao teu
sorriso comoquem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
"Amor como em Casa", Manuel António Pina
Regresso devagar ao teusorriso comoquem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
"Amor como em Casa", Manuel António Pina
sábado, 23 de dezembro de 2006
Rasgo

Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.
Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.
Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.
"Meu Coração Tardou", Fernando Pessoa
sábado, 16 de dezembro de 2006
Ensina-me a chorar

there's still a little bit of your taste in my mouth
there's still a little bit of you laced with my doubt
it's still a little hard to say what's going on
there's still a little bit of your ghost your witness
there's still a little piece of your face i haven't kissed
you step a little closer to me
still i can't see what's going on
stones taught me to fly
love taught me to lie
life taught me to die
so it's not hard to fall
when you float like a cannonball
there's still a little bit of your song in my ear
there's still a little bit of your words i long to hear
you step a little closer each day
so close that i can't see what's going on
stones taught me to fly
love taught me to lie
life taught me to die
so it's not hard to fall
when you float like a cannon
stones taught me to fly
love taught me to cry
so come on courage
teach me to be shy
'cause it's not hard to fall
and i don't want to scare her
it's not hard to fall
and i don't wanna lose
it's not hard to grow
when you know that you just don't know
"Cannonball", Damien Rice
there's still a little bit of you laced with my doubt
it's still a little hard to say what's going on
there's still a little bit of your ghost your witness
there's still a little piece of your face i haven't kissed
you step a little closer to me
still i can't see what's going on
stones taught me to fly
love taught me to lie
life taught me to die
so it's not hard to fall
when you float like a cannonball
there's still a little bit of your song in my ear
there's still a little bit of your words i long to hear
you step a little closer each day
so close that i can't see what's going on
stones taught me to fly
love taught me to lie
life taught me to die
so it's not hard to fall
when you float like a cannon
stones taught me to fly
love taught me to cry
so come on courage
teach me to be shy
'cause it's not hard to fall
and i don't want to scare her
it's not hard to fall
and i don't wanna lose
it's not hard to grow
when you know that you just don't know
"Cannonball", Damien Rice
Outono
Outono do amor que folhas movesna direcção dos corpos separados
e molhas desses prantos ignorados
de quem da primavera conheceu o
movimento das aves
e desse movimento estas esperas
agora só conhece já e ouve
a própria descida com as folhas
a voz própria cansada
quando a vida
e a voz lhas está a dor tirando
Outono do amor outono de aves
e de vozes caladas e de folhas
molhadas de temor e surdo pranto
Gastão Cruz
sexta-feira, 8 de dezembro de 2006
O Perfume
Der Wahnsinnist
nur eine schmale Brücke
die Ufer sind Vernunft und Trie
bich steig dir nach
das Sonnenlicht den Geist verwirrt
ein blindes Kind das vorwärts kriecht
weil es seine Mutter riecht
Ich finde dich
Die Spur ist frisch und auf die Brücke
tropft dein Schweiß dein warmes Blut
ich seh dich nicht
ich riech dich nur Ich spüre Dich
ein Raubtier das vor Hunger schreit
wittere ich dich meilenweit
Du riechst so gut
du riechst so gut
ich geh dir hinterher
du riechst so gut
ich finde dich
- so gutich steig dir nach
du riechst so gut
gleich hab ich dich
Jetzt hab ich dich
Ich warte bis es dunkel ist
dann fass ich an die nasse Hautverrate mich nicht
oh siehst du nicht die Brücke brennt
hör auf zu schreien und wehre dich nicht
weil sie sonst auseinander bricht
Du riechst so gut
du riechst so gut
ich geh dir hinterher
du riechst so gut
ich finde dich
- so gutich steig dir nach
du riechst so gut
gleich hab ich dich
Du riechst so gut
du riechst so gut
ich geh dir hinterher
du riechst so gut
ich finde Dich
- so gut
ich fass dich an
du riechst so gut
jetzt hab ich dich
Du riechst so gut
du riechst so gut
ich geh dir hinterher
"Du Riechst So Gut", Rammstein
sábado, 2 de dezembro de 2006
Extremo a Extremo
Ontemàs onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro temo estranho verbo nosso
"De Profundis Amamus", Mário Cesariny
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