segunda-feira, 26 de maio de 2008

Fingimento

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

José Luís Peixoto

domingo, 18 de maio de 2008

Segredos e Silêncio



Quando anoitece
Deixo-me encantar
Pela imensidão
Do azul sagrado

Conto às ondas os meus segredos
Confidentes dos meus medos
Dançam comigo neste meu silêncio
No desespero da minha solidão

Vou mergulhar no meu ser
E tentar esquecer
Que um dia sorri com esperança
Vou mergulhar no meu ser
E tentar esquecer
Que um dia brilhei no meu céu...

"Dança das Ondas", Ava Inferi

sábado, 10 de maio de 2008

Sonho Sem Esperança

Verde Secreto

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde tudo recomeça.

Alexandre O'Neill