terça-feira, 28 de junho de 2011

A cintilante substância do sítio

Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"

Eram lentas madrugadas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
— que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias”

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Razões

This will all be over soon

some things are better left forgotten
all the weight of the world will crush your bones
in an ideal situation
this will all be over soon

and I will leave this world in pieces
I will leave it to the scarab and the crows
under seas and under soil
in a million years our bones will be your oil

one by one
it happens to us all
when you least expect
your sky will tumble down
we were surprised to find it was our time
to sink or swim

and I will leave this world in pieces
I will leave it to the scarab and the crows
under seas and under soil
in a million years our bones will be your oil

we're out of our depth and
the sea of regrets and
I hate to say I told you so

we're out of our depth and
a sea of excess and
this is everything I hoped it would be


iLiKETRAiNS

domingo, 26 de junho de 2011

Onde...

Não ignoro

Tenho às vezes um sonho estranho e penetrante
Com uma desconhecida, que amo e que me ama
E que, de cada vez, nunca é bem a mesma
Nem é bem qualquer outra, e me ama e compreende.


Porque me entende, e o meu coração, transparente
Só pra ela, ah!, deixa de ser um problema
Só pra ela, e os suores da minha testa pálida,
Só ela, quando chora, sabe refrescá-los.


Será morena, loira ou ruiva? — Ainda ignoro.
O seu nome? Recordo que é suave e sonoro
Como esses dos amantes que a vida exilou.


O olhar é semelhante ao olhar das estátuas
E quanto à voz, distante e calma e grave, guarda
Inflexões de outras vozes que o tempo calou.


Paul Verlaine, in "Melancolia"

Bitter hearts and angry voices

Drawn into a world of choices
Bitter hearts and angry voices
I'm tired of promisses constantly broken
Words are there just to be spoken
I can't comply


So I can't sit here through this mess
Acting just like all the rest
With a smile


Still


You and I we'll meet as soon this war is over
You and I we'll seize the dream
You won't be sorry


But now I have to go away
I'll save the world today


Gentle grins and perfect plans
That turn out to reveal the monsters around
The werewolves holding silver bullets
Staring at me in my nightmares
It has to stop


It's my turn to stop them
Maybe I won't win but I'll surely try
I'll try


Still


You and I we'll meet as soon this war is over
You and I we'll seize the dream
You wont be sorry


But now I have to go away
I'm going to save the day


No surprises, farewell parties
Tears that fill your green-eyed worries
I hate goodbyes

David Fonseca

terça-feira, 21 de junho de 2011

Libertação

Desaparecer
Extinguir
Perecer
Fugir
Acabar
Esconder
Evadir
Desvanecer
Escapar
Morrer
Voar

Liberdade

M

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Love will...

Anyone else but me...

I've fallen down there once before
I've fallen down there once before
I'm always down there rest assured
I'm always down there rest assured


Falling, hands are tied
Anyone else but me
Falling, hands are tied
Anyone else but me


Calling out to end disgrace
Calling out for death's embrace
All around seems so obscure
All around seems less than pure
Getting over the madness
Getting over the strain
Getting over the madness
Getting over the strain

Paradise Lost

Sonho Pesadelo Realidade

Amor
Sonho ou Pesadelo
Não conseguimos viver sem ele
Mas quando o temos...
Basta uma brisa
e qual castelo de cartas tudo se desmorona
Tão depressa é o Paraíso
Como de repente descemos ao Inferno
Podemos fazer tudo para a relação andar
Que um grão de areia
A mais ínfima migalha
Faz a máquina parar
Amor
Sonho ou Pesadelo
Talvez a questão seja outra
Realidade?
É isso
O Amor não existe
O Amor está morto!

M

domingo, 19 de junho de 2011

Fantasma adiado

Estas palavras são o eco de uma outra coisa
que provavelmente nunca encontrarás.
A poucos é dado
conhecer o inimigo,
o duplo,
o que espera por nós (quase sempre em vão) até ao fim.

Fantasma adiado,
só ele tem a chave
deste jogo.

Luís Filipe Castro Mendes

terça-feira, 14 de junho de 2011

Fim de quê?

No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser...,
Este pequeno universo provinciano entre os astros,
Esta aldeola do espaço,
E não só do espaço visível, mas até do espaço total.


Álvaro de Campos, in "Poemas"

Exits

Cansado

Estou cansado
Cansado de andar à procura
Cansado de encontrar o que não quero
Estou cansado
Cansado de coisas que não são
Cansado de não encontrar o que quero
Estou cansado
Cansado de esperar por quem espero
Cansado deste desespero
Sinto-me cada vez mais a afundar
A afundar num mar cheio de nada
Estou cansado para lutar
Demasiado cansado para adormecer
Cansado para tentar acordar
Para uma vida inteira a perder...

M

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Hope Death Pain

Um afecto, um sorriso ou um abraço

Olho em volta de mim. Todos possuem -
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.


Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da côr que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!


Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo pra ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lôdo.


Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse - ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...


Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...


* * * * *

Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos d'harmonia e côr!...


Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim - ó ânsia! - eu a teria...


Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases dourados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...


De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.


Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

Lapso da consciência

Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.


Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.


Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O que somos

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.


Ricardo Reis, in "Odes"

Close my eyes

Ich krieg' von dir niemals genug
Du bist in jedem Atemzug
Alles dreht sich nur um Dich
Warum ausgerechnet ich


Zähl die Stunden, die Sekunden
Doch die Zeit scheint still zu steh'n
Hab' mich geschunden, gewunden
Laß' mich geh'n


Was willst Du noch
Willst Du meine Tage zählen
Warum mußt Du mich
mit meiner Sehnsucht quälen


Deine Hölle brennt in mir
Du bist mein Überlebenselexier
Ich bin zerrissen
Wann kommst Du meine Wunden küssen


Out of the dark
Hörst Du die Stimme, die mir sagt
Into the light
I give up and close my eyes
Out of the dark
Hörst Du die Stimme, die Dir sagt
Into the light
I give up and you waste your tears
To the night


Ich bin bereit
Denn es ist Zeit
Für unseren Pakt über die Ewigkeit
Du bis schon da
Ganz nah
Ich kann Dich spüren
Laß' mich verführen, laß' mich entführen
Heute Nacht zum letzten Mal
Ergeben Deiner Macht
Reich mir die Hand
Mein Leben, nenn' mir den Preis
Ich schenk' Dir Gestern, Heut' und Morgen
Dann schließt sich der Kreis


Kein Weg zurück
Das weiße Licht kommt näher
Stück für Stück
Will mich ergeben
Muß ich denn sterben
Um zu leben
Out of the dark
Into the light
I give up and close my eyes


Out of the dark
Hörst Du die Stimme, die Dir sagt
Into the light
I give up and you waste your tears
To the night

Johann Hölzel

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ashes

I drown in ashes you've enshrined.
Of blissful days long gone by.
Concealed behind my dying eyes.
This hell of anger and weary lies.
A frame of mind, a dismal soul.
My final womb, this flesh turned cold.
You held me down and let me bleed.
My love, it died, along with me.
A world of scars and caresses pale.
And thoughts as chaste as pristine dew.
And flowers placed across your face.
I trace the life I've lost with you.
This bleakest pit that you've unveiled.
I hate to love as it is pain.
My hands are cut but I still sail.
An ocean of sadness in the rain.
My flesh, my blood.
My wound, my cry.
My broken back, my all now dies.
My soul, my tomb.
My pain, my joy.
My darkest mind, my love destroyed.


Celtic Frost

sábado, 4 de junho de 2011

The Passion

Esqueleto

Sem encontrar-se.
Viajante pelo seu próprio torso branco.
Assim ia o ar.


Logo se viu que a lua
era uma caveira de cavalo
e o ar uma maçã escura.


Detrás da janela,
com látegos e luzes se sentia
a luta da areia contra a água.


Eu vi chegarem as ervas
e lhes lancei um cordeiro que balia
sob seus dentezinhos e lancetas.


Voava dentro de uma gota
a casca de pluma e celulóide
da primeira pomba.


As nuvens, em manada,
ficaram adormecidas contemplando
o duelo das rochas contra a aurora.


Vêm as ervas, filho;
já soam suas espadas de saliva
pelo céu vazio.


Minha mão, amor. As ervas!
Pelos cristais partidos da morada
o sangue desatou suas cabeleiras.


Tu somente e eu ficamos;
prepara teu esqueleto para o ar.
Eu só e tu ficamos.


Prepara teu esqueleto;
é preciso ir buscar depressa, amor, depressa,
nosso perfil sem sonho.


Federico García Lorca, in 'Poeta em Nova Iorque'

Left Inside

Whats left inside him?
Dont he remember us?
Cant he believe me?
We seemed like bothers
Talked for hours last month
About what we wanna be
I sit now with his hand in mine
But I know he cant feel...


No one knows
Whats done is done
Its as if he were dead


Im close with his mother
And she cries endlessly
Lord how we miss him
At least whats remembered
Its so important to make best friends in life
But its hard when my friend sits with blank expressions

He as hollow as I alone now
He as hollow as I alone
A shell of my friend
Just flesh and bone
Theres no soul
He sees no love
I shake my fists at skies above
Mad at god


He as hollow as I converse
I wish he'd waken from this curse
Hear my words before its through
I want to come in after you
My best friend


He as hollow as I alone


Pantera

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Corpo e Alma

Aurora

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,


entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:


vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:


é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.


Sou eu, desde a aurora,
eu — a terra — que te procuro.


Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"