sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Teia de aranha sobre o abismo

Não fales alto que isto aqui é vida —
Vida e consciência dela,
Porque a noite avança, estou cansado, não durmo,
E, se chego à janela
Vejo, de sob as pálpebras da besta, os muitos lugares das estrelas...
Cansei o dia com esperanças de dormir de noite,
É noite quase outro dia. Tenho sono. Não durmo.
Sinto-me toda a humanidade através do cansaço —
Um cansaço que quase me faz carne os ossos...
Somos todos aquilo...
Bamboleamos, moscas, com asas presas,
No mundo, teia de aranha sobre o abismo.

Álvaro de Campos

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Bridges

Hoje o dia...

Hoje o dia é um dia chuvoso e triste
amortalhado
Naquela monotonia doente dos grandes dias.

Hoje o dia...
(a pena caiu-me das mãos)

Acabou-se o poema no papel.
Cá por dentro
Continua...

Oh! este marulhar das almas no silêncio!

Fernando Namora, in 'Relevos'

domingo, 23 de setembro de 2012

With shadows

Sunday is gloomy,
My hours are slumberless
Dearest the shadows
I live with are numberless
Little white flowers
Will never awaken you
Not where the black coach of
Sorrow has taken you
Angels have no thought
Of ever returning you
Would they be angry
If I thought of joining you?

Gloomy Sunday

Gloomy is Sunday,
With shadows I spend it all
My heart and I
Have decided to end it all
Soon there'll be candles
And prayers that are said I know
Let them not weep
Let them know that I'm glad to go
Death is no dream
For in death I'm caressin' you
With the last breath of my soul
I'll be blessin' you

Gloomy Sunday

Dreaming, I was only dreaming
I wake and I find you asleep
In the deep of my heart, dear
Darling I hope
That my dream never haunted you
My heart is tellin' you
How much I wanted you
Gloomy Sunday

REZSO SERESS

sábado, 22 de setembro de 2012

Ao longe...

Sonhos, meramente espectrais
De algo que pensamos ver ao fundo...

A felicidade imaginária,
Que raia, de instantes pueris.

Resumo assim a vida...
Em quatro frases contidas;
Pois prefiro vê-la passar ao longe,
Que agarrar-me ao que não existe.


Inverno Eterno

domingo, 16 de setembro de 2012

And also the trees...

O sopro húmido dos versos

De onde vem - a voz que
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?

Esteve aqui — aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
tivesse estado; e não a
ouvimos, como se não nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.

E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos reconhecido

outrora, onde está? A voz
que dança de noite, no inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela mão o fio
obscuro do horizonte.

Diz: "Não chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos."

Como se a ouvíssemos.

Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Esqueço-me de mim

Afastai-vos de mim, outrora horror
De mim pensado, e um grato sono pesa
Já sobre o que me sinto. Como quando
A fadiga, em princípio de dormirmos,
Se torna um prazer vago e um começo
Do sono em que a percamos, assim pouco
A pouco um múrmuro cessar da mente
Me inebria de sombras e me esquece
De mim, e me anoitece lentamente.

Fernando Pessoa