domingo, 28 de outubro de 2012

And I'm not afraid to die

I am the captain of my pain

Brother, my cup is empty
And I haven't got a penny
For to buy no more whiskey
I have to go home

I am the captain of my pain
Tis the bit, the bridle,
The trashing cane
The stirrup, the harness
The whipping mane
The pickled eye
The shrinking brain
O brother, buy me one more drink
I'll explain the nature of my pain
Yes, let me tell you once again
I am the captain of my pain

I cannot blame it all on her
To blame her all would be a lie
For many a night I lay awake
And wished that I could watch her die
To see her accusing finger spurt
To see flies swarm her hateful eye
To watch her groaning in the dirt
To see her clicking tongue crack dry
O brother, buy me one more drink
One more drink and then goodbye
And do not mock me when I say
Let's drink one more before I die

Well I've been sliding down on rainbows
Well I've been swinging from the stars
Now this wretch in beggars clothing
Bangs his cup across the bars
Look, this cup of mine is empty!
Seems I've misplaced my desires
Seems I'm sweeping up the ashes
Of all my former fires
So brother, be a brother
And fill this tiny cup of mine
And please, sir, make it whiskey
For I have no head for wine

I counted up my blessings
And counted only one
One tiny little blessing
And now that blessings gone
So buy me one more drink, my brother
Then I'm taking to the road
Yes, I'm taking to the rain
I'm taking to the snow
O my friend, my only brother
Do not let the party grieve
So throw a dollar onto the bar
Now kiss my ass and leave

O brother, my cup is empty
And I haven't got a penny
For to buy no more whiskey
I have to go home


Nick Cave

Inerte horror de desesperação

Montanhas, solidões, objectos todos,
Ainda que assim eu tenha de morrer,
Revelai-me a vossa alma, isso que faz
Que se me gele a mente ao perceber
Que realmente existis e em verdade,
Que sois facto, existência, cousas, ser.
Quantos o sentem, quantos, ao ouvir-me
«Estou aqui» compreenderão
Íntima e inteiramente, ouvindo n'alma
A alma da minha voz?
                                  A expressão
Fez-se para o vulgar, para o banal.
A poesia torce-a e dilacera-a;
Mas isto que eu em vão impor-lhe quero
Transcende-lhe o poder e a sugestão.
Metáfora nem símbolo o exprime;
Desespero ao ouvir-me assim dizer
Isso que n'alma tenho. Sinto-o, sinto-o
E só falando não me compreendo.

No mais simples dos factos é que existe
O horror maior: nisto: que há existência.
Sentir isto, eis o horror que não tem nome!
Mas senti-lo a sentir, intimamente,
Não com anseios ou suspiros d'alma,
Mas com pavor supremo, com gelado
Inerte horror de desesperação.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Escuto sem te ouvir

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Alberto Caeiro

domingo, 21 de outubro de 2012

Uma foto instantânea para um propósito

A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.

Pedro Mexia

To Ana... wherever you are...

O barulho que fazem os meus sentidos

Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

Manuel António Pina

Stealing flowers from my grave

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

If I was to walk away...

You're tearing me apart
Crushing me inside
You used to lift me up
Now you get me down
If I Was to walk away
From you my love
Could I laugh again ?
If I Walk away from you
And leave my love
Could I laugh again ?
Again, again...

You're killing me again
Am I still in your head ?
You used to light me up
Now you shut me down
If I Was to walk away
From you my love
Could I laugh again ?
If I Walk away from you
And leave my love
Could I laugh again ?

I'm losing you again
Like eating me inside
I used to lift you up
Now I get you down

Without your love
You're tearing me apart
With you close by
You're crushing me inside
Without your love
You're tearing me apart
Without your love
I'm doused in madness
Can't lose this sadness
I can't lose this sadness

Can't lose this sadness

You're tearing me apart
Crushing me inside
Without your love
(you used to lift me up)
You're crushing me inside
(now you get me down)
With you close by
I'm doused in madness
Can't lose this sadness
It's riping me apart
It's tearing me apart
It's tearing me apart
I don't know why
It's riping me apart
It's tearing me apart
It's tearing me apart
I don't know why
I don't know why
I don't know why
I don't know why
Without your love
Without your love
Without your love
Without your love
It's tearing me apart


Archive, "Again"

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Bahnhof

Nem sempre a bússola se atrai ao mesmo norte

A minha poesia é assim como uma vida que vagueia
                                                    pelo mundo,

por todos os caminhos do mundo,
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar
                                                    num jardim nocturno,

ora um deserto que o simum veio modificar,
ora a miragem de se estar perto do oásis,
ora os pés cansados, sem forças para além.

Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe
                                                    o rumo e a hora de o atingir,
a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado
de que a tempestade não lhe abalará o palácio,
a doçura de quem nada tem a regatear,
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.

Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo
norte.
Que ninguém me peça nada. Nada.
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,
com a minha noite que nem sempre é noite
como a alma quer.

Não sei caminhos de cor.

Fernando Namora

domingo, 7 de outubro de 2012

O eterno abismo sem fundo

Cansado até dos deuses que não são...
Ideais, sonhos... Como o sol é real
E na objectiva coisa universal
        Não há o meu coração...
        Eu ergo a mão.
Olho-a de mim, e o que ela é não sou eu.
Ente mim e o que sou há a escuridão.
Mas o que são a isto a terra e o céu?

Houvesse ao menos, visto que a verdade
É falsa, qualquer coisa verdadeira
        De outra maneira
Que a impossível certeza ou realidade.

Houvesse ao menos, sob o sol do mundo,
Qualquer postiça realidade não
        O eterno abismo sem fundo,
Crível talvez, mas tendo coração.

Mas não há nada, salvo tudo sem mim.
Crível por fora da razão, mas sem
Que a razão acordasse e visse bem;
Real com coração, inda que [...]

Fernando Pessoa

With the storm on your mind and the clouds in your eyes

With the wind at your back and the light in your eyes,
the freeze of your blindness will show.

Under the cloud cover, the flares signal change.
Will you ever know?

The fields they are burning, the smoke chokes your breath.
Will you stand or run?

You dream of a mountain, the peaks rise to the sky.
Will you answer its call?

Is your heart still beating? Can you feel this at all?
This landslide will bury us all.

With the storm on your mind and the clouds in your eyes,
will you survive?

Lie in wait, I will lie awake.
Falling through a world unknown.

Neurosis

sábado, 6 de outubro de 2012

Hearts lost forever

A Lua e as paredes frias

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

A lifetime is too long to sleep