quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A minha alma não dança com os números

A noite trocou-me os sonhos e as mãos 
dispersou-me os amigos 
tenho o coração confundido e a rua é estreita 
estreita em cada passo 
as casas engolem-nos 
sumimo-nos 
estou num quarto só num quarto só 
com os sonhos trocados 
com toda a vida às avessas a arder num quarto só 
Sou um funcionário apagado 
um funcionário triste 
a minha alma não acompanha a minha mão 
Débito e Crédito Débito e Crédito 
a minha alma não dança com os números 
tento escondê-la envergonhado 
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente 
e debitou-me na minha conta de empregado 
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar 
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever? 
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço 
Soletro velhas palavras generosas 
Flor rapariga amigo menino 
irmão beijo namorada 
mãe estrela música 
São as palavras cruzadas do meu sonho 
palavras soterradas na prisão da minha vida 
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida 
num quarto só


António Ramos Rosa

Em surdina...

As bocas que estão fechadas 
não estão caladas 

Os braços que estão caídos 
não estão imóveis 

E os olhos que estão voltados 
não estão sem ver 

Homem só homem só 
tu bem me compreendes quando digo 
que não estás só 
e bem entendes bem entendes 
este longo discurso enchendo o ar 
que vem de toda a parte e vai a toda a parte 
eternamente 
em surdina


Mário Dionísio