domingo, 2 de agosto de 2009

Águas Nuas


Amar-te assim desvelado

entre barro fresco e ardor.

Sorver o rumor das luzes

entre os teus lábios fendidos.


Deslizar pela vertente

da garganta, ser música

onde o silêncio aflui

e se concentra.


Irreprimível queimadura

ou vertigem desdobrada

beijo a beijo,

brancura dilacerada


Penetrar na doçura da areia

ou do lume,

na luz queimada

da pupila mais azul,


no oiro anoitecido

entre pétalas cerradas,

no alto e navegável

golfo do desejo,


onde o furor habita

crispado de agulhas,

onde faça sangrar

as tuas águas nuas.


Eugénio de Andrade

1 comentário:

Anónimo disse...

Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade



Beijo,

Ana