segunda-feira, 28 de março de 2011

Cego

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?


Carlos de Oliveira

domingo, 27 de março de 2011

Perder-me em ti

Fragmentos

The fragments of connection died
Some things just won't fade with time
Hide behind a transparent eye
You can't see me but I can you...
Betray without a moment's thought
Regret nothing but getting caught
Your time has come and here I stand
Why should I hold out my hand to you...


I could never turn to you
Silenced by that look in your eye
Feel I'm slipping back again


Black cold night I toss and turn I'm sinking, feel so
...drained
Shroud me, blind me, sick, weak, empty, drag me
...into pain
I tried so hard, don't drown me, bound to me,
self indulgently ...crazed
Black as coal, my sunken soul, will it ever be
...saved?


Come on and twist that knife again
Well I'd like to see you fucking try
Never going back again


An answer won't come from me
Confront your own worst enemy
What does your mirror see
Is it time to face up to me?


V.Cavanagh

sábado, 26 de março de 2011

Silêncio

Poente
















Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os
outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXII"

quinta-feira, 24 de março de 2011

Gelado céu

A cada hora
o frio
que o sangue leva ao coração
nos gela como o rio
do tempo aos derradeiros glaciares
quando a espuma dos mares
se transformar em pedra.


Ah no deserto
do próprio céu gelado
pudesses tu suster ao menos na descida
uma estrela qualquer
e ao seu calor fundir a neve que bastasse
à lágrima pedida
pela nossa morte.


Carlos de Oliveira, in 'Cantata'

Lentamente...ou a história de um perdedor...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Um mundo que cai II

Um mundo que cai

The world is falling so cold and grey.
Shallow and empty life lingers on.
It grieves my heart, it tears me apart...
I hear this constant disharmony!
Now I ride with the mocking and friendly ghouls on the night-wind, and play
by day amongst the catacombs. I know that light is not for me.
Lost in a dead world...
With broken wings!
Human reality feeds upon a whore!
For what idols have these lowlifes
bowed their heads to build up a shattered world?
Kill the bitch on the cross...
Scorn their sacred loss!
And the sheeps are making love to the madness of the flow!
Is this all they know...?
The madness of the flow will take the final blow,
as the sun goes down over mankind's tomb
in the universal graveyard of filth and slime.
This is Our time!
Lost in a sick world...
Beholding the corruption!
Curse them all!
Lead them astray!
It grieves my heart they won't go away!
Now I ride with the mocking and friendly ghouls on the night-wind, and play by day amongst the catacombs.
I know that light is not for me, save that of the moon over the rock.
I know always that I am an outsider; a stranger in this century and among those who are still men.


Anders Jacobsson

domingo, 20 de março de 2011

E quando...


















E quando eu descobrir o segredo
da neblina cinzenta
que torna a água barrenta
e sem perdão me esmaga o peito


E quando se levantar de repente
a névoa que cobre o rio
que gela tudo de frio
e escurece a corrente

E quando eu apanhar finalmente
o barco para a outra margem
outra que finde a viagem
onde se espere por mim


Porém, terei uma vez mais forças
para enfrentar tudo de novo
como a galinha e o ovo
repetir de desgraças


Longa se torna a espera
na névoa que cobre o rio
lenta vem a galera
na noite quieta de frio
e quando...

Tim

sábado, 19 de março de 2011

Para ti...e por ti



If you're lost and feel alone
Circumnavigate the globe
All you ever have to hope for two


And the way you seem to float
Circumnavigate in hope
And they seem to lose control
With you


Everyone of us is hurt
And everyone of us is scarred
Everyone of us is scared
Not you


Your eyes closed
Your head hurts
Your eyes feel so low


Everyone of us is scared
Everyone of us is hurt
Everyone of us has hope


For you

A teu lado...

Recordações

Demência


















Diz-me que solidão é essa
Que te põe a falar sozinho
Diz-me que conversa
Estás a ter contigo


Diz-me que desprezo é esse
Que não olhas para quem quer que seja
Ou pensas que não existes
Ninguém que te veja


Que viagem é essa
Que te diriges em todos os sentidos
Andas em busca dos sonhos perdidos

Lá vai uma luz
Lá vai o demente
Lá vai ele a passar
Assim te chama toda essa gente


Mas tu estás sempre ausente e não te conseguem alcançar
Diz-me que loucura é essa
Que te veste de fantasia
Diz-me que te liberta
Que vida fazias


Diz-me que distância é essa
Que levas no teu olhar
Que ânsia e que pressa
Tu queres alcançar


Mas eu estou sempre ausente e não conseguem alcançar
Não conseguem alcançar

António Joaquim Rodrigues Ribeiro

quinta-feira, 17 de março de 2011

Jardim de Pedra


















Fui pedir um sonho ao jardim dos mortos.
Quis pedi-lo, aos vivos. Disseram-me que não.
Os mortos não sabem, lá onde é que estão,
Que neles se enfeitam os meus braços tortos.


Os mortos dormiam... Passei-lhes ao lado.
Arranquei-lhes tudo, tudo quanto pude;
Páginas intactas — um livro fechado
Em cada ataúde.


Ai as pedras raras! As pedras preciosas!
Relâmpagos verdes por baixo do mar!
A sombra, o perfume dos cravos, das rosas
Que os dedos, já hirtos, teimavam guardar!


Minha alma é um cadáver pálido, desfeito.
As suas ossadas
Quem sabe onde estão?
Trago as mãos cruzadas,
Pesam-me no peito.
Quem sabe se a lama onde hoje me deito
Dará flor aos vivos que dizem que não?


Pedro Homem de Mello, in "Príncipe Perfeito"

segunda-feira, 14 de março de 2011

O mais espantoso de todos os males

Habitua-te a pensar que a morte não é nada para nós, pois que o bem e o mal só existem na sensação. Donde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte não ser nada para nós permite-nos usufruir esta vida mortal, evitando que lhe atribuamos uma idéia de duração eterna e poupando-nos o pesar da imortalidade. Pois nada há de temível na vida para quem compreendeu nada haver de temível no facto de não viver. É pois, tolo quem afirma temer a morte, não porque sua vinda seja temível, mas porque é temível esperá-la.
Tolice afligir-se com a espera da morte, pois trata-se de algo que, uma vez vindo, não causa mal. Assim, o mais espantoso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais.

Epicuro, in "A Conduta na Vida"

Sereias

Medos

domingo, 13 de março de 2011

Compreensão dos Rios

o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"

Quando a Chuva Cai

Sombra

Insanidade

Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...


Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!


Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!


Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...


Álvaro de Campos, in "Poemas"

sexta-feira, 11 de março de 2011

Anima Mea



















Estava a Morte ali, em pé, diante,
Sim, diante de mim, como serpente
Que dormisse na estrada e de repente
Se erguesse sob os pés do caminhante.
Era de ver a fúnebre bachante!
Que torvo olhar! que gesto de demente!
E eu disse-lhe: «Que buscas, impudente,
Loba faminta, pelo mundo errante?»
— Não temas, respondeu (e uma ironia
Sinistramente estranha, atroz e calma,
Lhe torceu cruelmente a boca fria).
Eu não busco o teu corpo... Era um troféu
Glorioso de mais... Busco a tua alma —
Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»


Antero de Quental, in "Sonetos"

Um Segundo (para S.)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Nunca

Coração de Ninguém

















Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.


Daniel Faria, in "Explicação das Árvores e de Outros Animais"

quarta-feira, 9 de março de 2011

Noite/Pesadelo

















I cannot shake this notion
It haunts me through the streets
The height is that of giants
The depth is that of seas
The words refuse my tongue
They tear me from my sleep
You ask me why I cry
But I cannot bear to speak
The nightmare goes on
Won't somebody wake me?
I cannot bear this notion
Its hand, an icy clasp
I bear its weight at all times
You need not even ask
This sadness in my eyes
The burden drags me down
It shames the storm outside
God knows I've tried and tried

"The Nightmare Goes On", Piano Magic

Noite

terça-feira, 8 de março de 2011

Última Canção

Solene Dolência dos Poentes

Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco tão rubro,
A solene dolência dos poentes, além.


Eu rio-me da Arte, do Homem, das canções,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.


Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.


Já farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufrágio maior.


Paul Verlaine, in "Melancolia"

segunda-feira, 7 de março de 2011

Luz Absurda














Neste lugar sem tempo nem memória,
nesta luz absoluta ou absurda,
ou só escuridão total, relances há
em que creio, ou se me afigura,
ter tido, alguma vez, passado
com biografia, onde se misturam
datas, nomes, caras, paisagens
que, de tão rápidas, me deixam
apenas a lembrança agoniada
de não mais poder lembrá-las.
Sobra, por vezes, um estilhaço
ou fragmento, como o latido
de um cão na tarde dolente
e comprida de uma remota infância.
Ou o indistinto murmúrio de vozes
junto de um rio que, como as vozes,
não existe já quando para ele
volvo, surpreso, o olhar cansado.
Insidiosas, rangem tábuas no soalho,
ou é o sussurro brando do vento
no zinco ondulado, na fronde umbrosa
dos eucaliptos de perfil no horizonte,
com o mar ao fundo. Que soalho,
de que casa, que vento em que paragens,
onde o mar ao longe que, entrevistos,
os não vejo já ou, sequer, recordo
na brevidade do instante cruel?
De que sonho, ou vida, ou espaço de outrem
provêm tais sombras melancólicas,
ferindo de indecifráveis avisos
este lugar em que, não sendo consentido
o coração, se não consentem tempo e memória?
Pausa ou pena, a seu oculto propósito há-de
sempre opor-se, lenta, a inexorável asfixia
desta luz absurda, ou só escuridão total.


Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"

sábado, 5 de março de 2011

Instante

Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.


Ricardo Reis, in "Odes"

Naufrágio

quinta-feira, 3 de março de 2011

Em nada

















i'm going to the darklands
to talk in rhyme
with my chaotic soul
as sure as life means nothing
and all things end in nothing
and heaven i think
is too close to hell
i want to move i want to go
i want to go
oh something won't let me
go to the place
where the darklands are
and i awake from dreams
to a scary world of screams
and heaven i think
is too close to hell
i want to move i want to go
i want to go
take me to the dark
oh god I get down on my knees
and i feel like i could die
by the river of disease
and i feel that i'm dying
and i'm dying
i'm down on my knees
oh i'm down
i want to go i want to stay
i want to stay

Jesus and Mary Chain

Lama

Sempre que...

Forja














Invento-te recordo-te distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.


A palavra desejo incendiada
lambendo a trave mestra do teu corpo
a palavra ciúme atormentada
a provar-me que ainda não estou morto.


E as coisas que eu não disse? Que não digo:
Meu terraço de ausência meu castigo
meu pântano de rosas afogadas.


Por ti me reconheço e contradigo
chão das palavras mágoa joio e trigo
apenas por ternura levedadas.


Ary dos Santos