sábado, 14 de maio de 2011

Nudez do Vidro

O outono
por assim dizer
pois era verão
forrado de agulhas


a cal
rumorosa
do sol dos cardos


sem outras mãos que lentas barcas
vai-se aproximando a água


a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros


os prados matinais
os pés
verdes quase


o brilho
das magnólias
apertado nos dentes


uma espécie de tumulto
as unhas
tão fatigadas dos dedos


o bosque abre-se beijo a beijo
e é branco


Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água"

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