Eu não amo ninguém. Tambem no mundo
Ninguém por mim o peito bater sente,
Ninguém entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.
Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais calado que o esquife, a Morte e as lousas,
Selvagem, solitário, inerte e mudo,
- Passividade estúpida das Cousas.
Fechei, de há muito, o livro do Passado
Sinto em mim o desprezo do Futuro,
E vivo só comigo, amortalhado
N'um egoísmo bárbaro e escuro.
Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regiões dos crueis indiferentes,
Meu peito é um covil, onde, às escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.
E não vejo ninguém. Saio sómente
Depois de pôr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguem me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os cães ladram à lua...
António Gomes Leal, in 'Claridades do Sul'
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