terça-feira, 27 de junho de 2006

Para Alguém

Versos

Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos;
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo des desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê; por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...

"Poema melacólico a não sei que mulher", Miguel Torga

sábado, 17 de junho de 2006

Para ti

Labirintos

Fantasies in my head
I drift away to all seas
Deep underneath the ocean
I heard the tale of the sea maid

All this beauty
it lights up my life
I ride the waves
to far-off seas
And I lay on the golden sand
I reflect the sun
I make you dream

I glow with the silver light
Thousand-and-one stars bright
This laborinth of life
takes me to you home shore

"Tale of the Sea Maid", Leaves' Eyes

terça-feira, 13 de junho de 2006

Adormeço

A tua morte, que me importa;
se o meu desejo não morreu?
Sonho contigo, virgem morta,
e assim consigo (mas que importa?)
possuir em sonho quem morreu.

Sonho contigo em sobressalto,
não vás fugir-me, como outrora.
E em cada encontro a que não falto
inda me turbo e sobressalto
à tua mínima demora.

Onde estiveste? Onde? Com quem?
- Acordo, lívido, em furor.
Súbito, sei: com mais ninguém,
ó meu amor!, com mais ninguém
repartirás o teu amor.
E se adormeço novamente
vou, tão feliz!, sem azedume
- agradecer-te, suavemente,
a tua morte que consente
tranquilidade ao meu ciúme.

"Elegia do ciúme", David Mourão-Ferreira

domingo, 4 de junho de 2006

Desenho

Se uma gaivota viesse
Trazer-me o céu de Lisboa
No desenho que fizesse,
Nesse céu onde o olhar
É uma asa que não voa
Esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
No meu peito bateria
Meu amor na tua mão
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro
Dos sete mares andarilho
Fosse quem sabe o primeiro
A contar-me o que inventasse
Se um olhar de novo brilho
Ao meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
No meu peito bateria
Meu amor na tua mão
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
As aves todas do céu
Me dessem na despedida
O teu olhar derradeiro
Esse olhar que era só teu
Amor que foste o primeiro

Que perfeito coração
No meu peito bateria
Meu amor na tua mão
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.

Meu amor na tua mão
Nessa mão onde perfeito
Bateu meu coração.

"Gaivota", Alexandre O'Neill