terça-feira, 13 de junho de 2006

Adormeço

A tua morte, que me importa;
se o meu desejo não morreu?
Sonho contigo, virgem morta,
e assim consigo (mas que importa?)
possuir em sonho quem morreu.

Sonho contigo em sobressalto,
não vás fugir-me, como outrora.
E em cada encontro a que não falto
inda me turbo e sobressalto
à tua mínima demora.

Onde estiveste? Onde? Com quem?
- Acordo, lívido, em furor.
Súbito, sei: com mais ninguém,
ó meu amor!, com mais ninguém
repartirás o teu amor.
E se adormeço novamente
vou, tão feliz!, sem azedume
- agradecer-te, suavemente,
a tua morte que consente
tranquilidade ao meu ciúme.

"Elegia do ciúme", David Mourão-Ferreira

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