sábado, 22 de dezembro de 2007

Nada vai mudar



"Across the Universe" - Fiona Apple

Acordar

Todos os dias acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei-de fazer comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.

Alberto Caeiro

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

sábado, 8 de dezembro de 2007

Tarde de mais

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia
e na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.

Ary dos Santos

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Tesouro Que Não Somos

Para te dizer tão-só que te queria
Como se o tempo fosse um sentimento
bastava o teu sorriso de um outro dia
nesse instante em que fomos um momento.
Dizer amor como se fosse proibido
entre os meus braços enlaçar-te mais
como um livro devorado e nunca lido.
Será pecado, amor, amar-te demais?
Esperar como se fosse (des) esperar-te,
essa certeza de te ter antes de ter.
Ensaiar sozinho a nossa arte
de fazer amor antes de ser.
Adivinhar nos olhos que não vejo
a sede dessa boca que não canta
e deitar-me ao teu lado como o Tejo
aos pés dessa Lisboa que ele encanta.
Sentir falta de ti por tu não estares
talvez por não saber se tu existes
(percorrendo em silêncio esses altares
em sacrifícios pagãos de olhos tristes).
Ausência, sim. Amor visto por dentro,
certezas ao contrário, por estar só.
Pesadelo no meu sonho noite adentro
quando, ao meu lado, dorme o que não sou.
E, afinal, depois o que ficou
das noites perdidas à procura
de um resto de virtude que passou
por nós em co(r)pos de loucura?
Apenas mais um corpo que marcou
a esperança disfarçada de aventura...
(Da estupidez dos dias já estou farto,
das noites repetidas já cansado.
Mas, afinal, meu Deus, quando é que parto
para começar, enfim, este meu fado?)
No fim deste caminho de pecados
feito de desencontros e de encantos,
de palavras e de corpos já usados
onde ficamos sós, sempre, entre tantos...
Que fique como um dedo a nossa marca
e do que foi um beijo o nosso cheiro:
Tesouro que não somos. Fique a arca
que guarde o que vivemos por inteiro.

"Carta de Amor", Fernando Tavares Rodrigues

sábado, 17 de novembro de 2007

Metamorfose de Emoções

Desta vez vou escrever-te um poema que vai ser um poema de amor, mas que não é apenas um poema de amor. O amor, com efeito, é algo que não cabe num poema; pelo contrário, o poema é que pode caber no amor, sobretudo quando te abraço, e sinto os teus cabelos na boca, agora que a tua voz me corre pelos ouvidos como, num dia de verão, a água fresca corre pela garganta. A isto, em retórica, chama-se uma comparação; e pergunto o que é que o amor tem a ver com a retórica, ou por que é que o teu corpo se teme de transformar numa metáfora - rosa, lírio, taça, qualquer objecto que tenha, na sua essência, um elemento que me possa levar até ele, como se fosse preciso, para te tocar, substituir-te por uma outra imagem, ver em ti o que não és, nem tens de ser, ou ainda transformar-te num lugar comum, que é aquilo em que, quase sempre, acabam os poemas de amor. Assim, este poema de amor é, mais do que um poema de amor, um exercício para escrever um poema de amor - mas um poema de amor a sério, sem comparações nem metáforas, só contigo, com o teu corpo, com a tua voz, com os teus cabelos, com aquilo que é real, e não precisa de sair da realidade para se tornar objecto de um poema de amor em que o amor, finalmente, deixa de ser o objecto único do poema, que se preocupa acima de tudo com a retórica, as imagens, o equilíbrio das formas. Mas, pergunto, não é o teu corpo uma flor? Não é a tua boca uma rosa? Não são lírios os teus seios? Tudo, então, se transforma: e o que tenho nas mãos é uma imagem, a pura metáfora da vida, a abstracta metamorfose das emoções. O resto, meu amor, é tu - e é por isso que o poema de amor que te escrevo não é, finalmente, um poema de amor.
"Projecto", Nuno Júdice

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Tu Aqui

Para a SweetWitch...



"Wish You Were Here", Blackmore's Night

Dunas

sê devastador e violento como a tempestade
ao abrir as gavetas, ao depor sobre a mesa
nenhuma razão que outros conheçam. alimenta-te
de mim e de ti, guarda as fotografias em paredes
brancas onde nenhuma ave se demore,

abre-me as feridas, as mais recentes e as antigas.

sê brando e lento como as manhãs de dezembro

ao desfazerem-se em neve, esquece os recados,
os pequenos delitos escondidos em segredo.
os telhados abrigam-nos da maledicência, do azar,
daquilo que o tempo gasta em passar sobre nós.

leva-me assim, como um acidente entre os dedos.

sê luminoso e intenso, ó meu amor, retrato escondido,

colecciona os declives, ensina-me essa geografia,
sê inocente e puro, mesmo que a noite interrompa a vida
e a nossa pele estremeça. deixa que bebamos
apenas se o prazer magoar onde nasce a sede,

fala-me de mim e de ti, se nos sentarmos nas dunas.

Francisco José Viegas

domingo, 4 de novembro de 2007

Alma

My heart is still broken
Forever my soul is frozen
Still watching the rain to fall
Forever standing in the cold all alone

I'll stay here to the end
Another day to start
Another day to break my heart
With love, still no romance
The fragile pieces of my soul
Belongs to you

I hate to feel
I wish I couldn't feel at all

Don't ask why I have to leave
Don't know why I still breathe
Don't understand why I'm still hiding
All my thoughts for you, saving my
Love for you
Once again I'm living inside myself

"Hate To Feel", Mortal Love

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Fazer-te Sorrir



I've found a way to make you
I've found a way
A way to make you smile

I read bad poetry
Into your machine.
I save your messages
Just to hear your voice.
You always listen carefully
To awkward rhymes.
You always say your name,
Like I wouldn't know it's you,
At your most beautiful.

I've found a way to make you
I've found a way
A way to make you smile

At my most beautiful
I count your eyelashes, secretly.
With every one, whisper I love you.
I let you sleep.
I know you're closed eye watching me,
Listening.
I though I saw a smile.

I've found a way to make you
I've found a way
A way to make you smile

"At My Most Beautiful", R.E.M.

domingo, 28 de outubro de 2007

Oceano

Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.
Sou demasiado são para me esquecer

do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas.
Tardará muito, se é que as horas contam,

ver-te, de novo, perto de mim, longe,
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
um dia a menos, o da tua chegada.
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...
Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva

- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se...
-escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles
carregadas de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
na minh'alma inquieta um outro bater d'asa
sou num jardim um leito de flores!...

"Poema de Amor", Ruy Cinatti

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Saber o Que É

Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
Eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
O amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. O amor é sermos fracos.
O amor é ter medo e querer morrer.

José Luís Peixoto

Nota: Mas mesmo assim andamos todos à procura dele...

domingo, 14 de outubro de 2007

Suspiro



Dry the tears behind my eyes
When I whisper your name
You said you come here everynight
Just to hear me sing

Everybody knows that I don't wanna grow
Everybody knows that I don't wanna know
Everybody knows that I don't wanna grow
Everybody knows that you're gone

Ah,don't you feel alive
When you dance between my thoughts
You swore to come here everynight
Just to sing our song

Everybody knows that I don't wanna grow
Everybody knows that I don't wanna know
Everybody knows that I don't wanna grow
Everybody knows that you're gone

Hurry up and please just hold my hand
So I can be released

Everybody knows that I don't wanna grow
Everybody knows that I don't wanna know
Everybody knows that I don't wanna grow
Everybody knows that you're gone
Everybody knows that I don't wanna grow
Everybody knows that I don't wanna know
Everybody knows that I don't wanna grow
And , Everybody knows that you're gone
That everybodys knows
That I don't wanna grow
And everybody knows that you're gone
That everybody knows
That I don't wanna grow
Everybody knows that, you're gone

"You're Gone (Everybody Knows That)", Fingertips

sábado, 6 de outubro de 2007

Briho na Escuridão

Quando adormeço, meus olhos veêm melhor
Pois todo os dia eles viram coisas desagradáveis
Mas quando durmo
Em meus sonhos eles pousam em ti
E buscam teu brilho em meio à escuridão
Tua sombra as sombras tornam-se mais brilhantes
Da tua sombra a tua forma forma alegre visão
Que faz tudo brilhar
Com luz mais clara que a do dia
Quando os meus olhos não vêem
Neles tua forma brilha tanto!
Como na calma noite tua bela forma imperfeita
Em meio ao pesado sono
Aos meus olhos sem visão se apresenta
O dia é noite quando nâo te vejo
E a noite é dia claro
Quandos meus olhos te mostram a mim

Shakespeare

sábado, 29 de setembro de 2007

Não Chores



Sleep, don't weep, my sweet love
Your face is all wet and your day was rough
So do what you must do to find yourself
Wear another shoe, paint my shelf
Those times that I was broke, and you stood strong
I think I found a place where I...

Sleep, don't weep, my sweet love
Your face is all wet 'cause our days were rough
So do what you must do to fill that hole
Wear another shoe to comfort the soul
Those times that I was broke, and you stood strong
I think I found a place where I feel I will...

Sleep, don't weep, my sweet love
My face is all wet 'cause my day was rough
So do what you must do to find yourself
Wear another shoe, paint my shelf
Those times that I was broke, and you stood strong
I hope I find a place where I feel I belong

Sleep, don't weep, my sweet love
My face is all wet 'cause my day was rough

"Sleep Don't Weep", Damien Rice

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Arrependimento

não me arrependo das horas que perdi a esperar-te
quando ainda havia a esperança. a esperança que
havia ainda quando, a esperar-te, perdi horas de que
não me arrependo.

um instante na memória de chegares é mais valioso
do que jardins. do que montanhas. do que anos de
tempo.

arrependo-me de ficar ao sol, de sorrir, de esquecer
que devagar passam os dias. os dias passam devagar,
esquecendo-se de sorrir e de ficar onde me
arrependo.

José Luís Peixoto

E Se Tu...

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Secreta

não imaginas, ninguém imagina, como o meu peito
ficou vazio depois de partires. o teu sorriso existia
ainda dentro de mim, mas já não eras tu. era a tua
imagem.

não penso para onde foste porque o meu peito, sem
ti, fica atravessado por lâminas. tenho um silêncio
dentro. toco os sítios onde estiveram as tuas mãos.
sinto o que sentiste.

fico acordado de noite, com a esperança secreta de
que possas regressar.

José Luís Peixoto

Divino...



"Beloved One", Ben Harper

sábado, 15 de setembro de 2007

Afasta as Nuvens

Aos Meus Amigos...



So, we're alone again
i wish it were over
we seem to never end
only get closer
to the point where i can take no more

the clouds in your eyes
down your face they pour
won't you be the new one burn to shine
i take the blue ones every time
walk me down your broken line
all you have to do is cry

hush my baby now
your talking is just noise and won't lay me down amongst
your toys in a room where i can take no more

the clouds in your eyes
down your face they pour
won't you be the new one burn to shine
i take the blue ones every time
walk me down your broken line
all you have to do is cry

photographs and brightly colored paper
are your mask you wear in this caper
that is our life
we walk right into the strife
and a tear from your eye brings me home

the clouds in your eyes
down your face they pour
won't you be the new one burn to shine
i take the blue ones every time
walk me down your broken line
all you have to do is cry

"Closer", Joshua Radin

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Interminável

o teu rosto transformou-se na noite interminável
que atravessa cada tarde, cada tarde, cda tarde
interminável.

o rio de fumo que levava o teu nome para as
estrelas desapareceu dentro de dentro de dentro
da minha tristeza.

e o teu rosto era tudo o que tinha. e o teu era
tudo que tinha. tu eras tudo. tudo. e tudo é agora
mais do que tudo.

José Luís Peixoto

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Ferida Aberta



I see nothing in your eyes, and the more I see the less I like.

Is it over yet, in my head?

I know nothing of your kind, and I won't reveal your evil mind.

Is it over yet? I can't win.

So sacrifice yourself, and let me have what's left.
I know that I can find the fire in your eyes.
I'm going all the way, get away, please.

You take the breath right out of me.
You left a hole where my heart should be.Y
ou got to fight just to make it through,
'cause I will be the death of you.

This will be all over soon.
Pour salt into the open wound.
Is it over yet? Let me in.

So sacrifice yourself, and let me have what's left.
I know that I can find the fire in your eyes.
I'm going all the way, get away, please.

You take the breath right out of me.
You left a hole where my heart should be.
You got to fight just to make it through,
'cause I will be the death of you.

I'm waiting, I'm praying, realize, start hating.

You take the breath right out of me.
You left a hole where my heart should be.
You got to fight just to make it through,
'cause I will be the death of you.

"Breath", Breaking Benjamin

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Força

quando os instantes de amanhã se acumulam nas
paredes da casa, eu rasgo as páginas onde te escrevo,
porque sei que tudo será desnecessário, tudo será
frágil, quando imagino o sol que não sei se poderei ver,
esqueço as paredes e,

com tanta força,

quero que sejas feliz.

"Amor", José Luís Peixoto

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Aprender

Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas.
Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.
Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.
Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais. Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas segundos para destruí-la, e que poderás fazer coisas das quais te arrependerás para o resto da vida. Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que tens na vida, mas quem tens na vida.
E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprendes que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebes que o teu melhor amigo e tu podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobres que as pessoas com quem tu mais te importas são tiradas da tua vida muito depressa, por isso devemos sempre despedir-nos das pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.
Aprendes que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começas a aprender que não te deves comparar com os outros, mas com o melhor que podes ser. Descobres que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que se quer ser, e que o tempo é curto.
Aprendes que, ou controlas os teus actos ou eles te controlarão e que ser flexível nem sempre significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, existem sempre os dois lados. Aprendes que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer enfrentando as consequências. Aprendes que paciência requer muita prática.
Descobres que algumas vezes a pessoa que esperas que te empurre, quando cais, é uma das poucas que te ajuda a levantar. Aprendes que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tiveste e o que aprendeste com elas do que com quantos aniversários já comemoraste.
Aprendes que há mais dos teus pais em ti do que supunhas. Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são disparates, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.
Descobres que só porque alguém não te ama da forma que desejas, não significa que esse alguém não te ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo. Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, poderás ser em algum momento condenado. Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que tu o consertes. Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás.
Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga flores. E aprendes que realmente podes suportar mais...que és realmente forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que tu tens valor diante da vida!
William Shakespeare

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Instantes

A tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
Não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
Aqui há cidades vazias. Há cidades desertas. Há lugares.
Mas eu lembro que o tempo é outra coisa,
e tenho tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.
Aqui não há palavras. Há a tua ausência. Há o medo sem os teus lábios, sem os teus cabelos.
Fecho os olhos para te ver e para não chorar.
"in A casa, a escuridão", José Luís Peixoto

domingo, 19 de agosto de 2007

Opium

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo ---
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante ---
Manhã tão forte que me anoiteceu.

"Álcool", Mário de Sá-Carneiro

Infinito Tempo

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Amanhã



Quando os meus olhos te tocaram
Eu senti que encontrara
A outra metade de mim

Tive medo de acordar
Como se vivesse um sonho
Que não pensei realizar

E a força do desejo
Faz-me chegar perto de ti

Quando eu te falei em amor
Tu sorriste para mim
E o mundo ficou bem melhor
Quando eu te falei em amor
Nós sentimos os dois
Que o amanhã vem depois
E não no fim

Estas linhas que hoje escrevo
São do livro da memória
Do que eu sinto por ti

E tudo o que tu me dás
É parte da história
Que eu ainda não vivi

E a força do desejo
Faz-me chegar perto de ti

Quando eu te falei em amor
Tu sorriste para mim
E o mundo ficou bem melhor
Quando eu te falei em amor
Nós sentimos os dois
Que o amanhã vem depois
E não no fim

"Quando Eu Te Falei Em Amor", André Sardet

Amor Puro

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

"Elogio Ao Amor Puro", Miguel Esteves Cardoso

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Margens

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

"Surdo, Subterrâneo Rio", Eugénio de Andrade

terça-feira, 24 de julho de 2007

Olhos de Gelo



Regarde, il gèle
Là sous mes yeux
Des stalactites de rêves
Trop vieux
Toutes ces promesses
Qui s’évaporent
Vers d’autres ciels
Vers d’autres ports
Et mes rêves s’accrochent à tes phalanges
Je t’aime trop fort, ça te dérange
Et mes rêves se brisent sur tes phalanges
Je t’aime trop fort
Mon ange, mon ange
De mille saveurs
Une seule me touche
Lorsque tes lèvres
Effleurent ma bouche
De tous ces vents,
Un seul me porte
Lorsque ton ombre
Passe ma porte
Et mes rêves s’accrochent à tes phalanges
Je t’aime trop fort, ça te dérange
Et mes rêves se brisent sur tes phalanges
Je t’aime trop fort
Mon ange, mon ange
Prends mes soupirs
Donne moi des larmes
A trop mourir
On pose les armes
Respire encore
Mon doux mensonge
Que sur ton souffle
Le temps s’allonge
Et mes rêves s’accrochent à tes phalanges
Je t’aime trop fort, ça te dérange
Et mes rêves se brisent sur tes phalanges
Je t’aime trop fort
Mon ange, mon ange
Seuls sur nos cendres
En équilibre
Mes poumons pleurent
Mon cœur est libre
Ta voix s’efface
De mes pensées
J’apprivoiserai
Ma liberté
Et mes rêves s’accrochent à tes phalanges
Je t’aime trop fort, ça te dérange
Et mes rêves se brisent sur tes phalanges
Je t’aime trop fort
Mon ange, mon ange

"Le Tunnel d'Or", AaRON

O Teu Olhar O Meu Olhar

Chovia e vi-te entrar no mar
longe de aqui há muito há muito tempo já
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Mais tarde olhei-te e nem te conhecia
Agora aqui relembro e pergunto:
Qual a realidade de tudo isto?
Afinal onde é que as coisas continuam
e como continuam se é que continuam?
Apenas deixarei atrás de mim tubos
[de comprimidos
a casa povoada o nome no registo
uma menção no livro das primeiras letras?
Chovia e vi-te entrar no mar
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Que importa que algures continues?
Tudo morreu: tu eu esse tempo esse lugar
Que posso eu fazer por tudo isso agora?
Talvez dizer apenas
chovia e vi-te entrar no mar
E aceitar a irremediável morte para tudo
[e para todos

"Através da chuva e da névoa", Ruy Belo

sábado, 21 de julho de 2007

Sentir...



I feel I know you
I don't know how
I don't know why

I see you feel for me
You cried with me
You would die for me

I know I need you
I want you to
Be free of all the pain
You hold inside

You cannot hide
I know you tried
To be who you couldn't be
You tried to see inside of me

And now I'm leaving you
I don't want to go
Away from you

Please try to understand
Take my hand
Be free of all the pain
You hold inside

You cannot hide
I know you tried
To feel...
To feel...

"Parisienne Moonlight", Anathema

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Em Silêncio

Countless times I trusted you,
I let you back in,
Knowing... Yearning... you know
I should have run... but I stayed

Maybe I always knew
My fragile dreams would be broken... for you

Today I introduced myself
To my own feelings
In silent agony, after all these years
They spoke to me... after all these years

Maybe I always knew
My fragile dreams would be broken... for you

"Fragile Dreams", Danny Cavanagh

quinta-feira, 19 de julho de 2007

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Aquilo que Ninguém Viu

Que o poeta de todos os poetas
me conceda boa estrela
que a estrela de todos os astros
me premeie na lapela
prémios de honor
prefiro os muitos
oferecidos pelas mãos do amor
coroando o amor e seus heterónimos
nem vão caber nos Jerónimos

Amores anónimos não há
e assim foi pela madrugada
mesmo que seja um "assim fosse"
vou nomear-te namorada
ninguém já soube o que é o amor
se o amor é aquilo que ninguém viu
uma cor que fugiu
de um pano leve
e pairou serena e breve
no ar
(Pousa agora, borboleta
na pena deste poeta:)

É uma cor que dá na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
É uma cor que dá na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
mas é uma batalha perdida
que se trava com ardor
é uma cor que dá na vida
o amor
dor que desatina sem doer

Se devagar se vai ao longe
devagar te quero perto
mesmo que o que arde nunca cure
vou beijar-te a sol aberto
é já dos livros que o instante
se parece tanto com a eternidade
e que o amor, na verdade
só se cansa de ti
se de ti mesmo te cansas

Mordidas mansas, emoções
suspiros densos, afagares
liberto das definições
o amor define os seus lugares
ilhas desertas até ver
ver o sol, a chuva
o arco do corpo
arco-íris, corpo a corpo
cara a cara, cor a cor
incandescendo o olhar
(Pousa agora, borboleta
na pena deste poeta:)

É uma cor que dá na vida
o amor...

E ao pôr o dedo nas feridas
que supúnhamos curadas
provas de fogo atravessamos
no mar alto festejadas
não se controla o inesperado
nem se diz o indizível do amor
uma cor que fugiu
de um pano leve
e pairou serena e breve
no ar
(Pousa agora, borboletana pena deste poeta:)

É uma cor que dá na vida
o amor...

"Definição do Amor", Sérgio Godinho

domingo, 15 de julho de 2007

Dizer Adeus



"Hurt", Christina Aguilera

Amarguras

Você foi a maior das minhas amarguras
E vive até hoje na minha loucura
E foi a mais cruel de todas as vitórias
E faz parte do livro das minhas memórias
Lembrar de que nada de bom,
Você me deu, só machuca alguém
Que não viveu
Vou recomeçar,
Vou tentar viver
Vou tirar você da minha vida
E p'ra não chorar
Antes de partir
Vou tentar sorrir na despedida
Agora que voltei à minha realidade
Tentando me esquecer,
De que tudo foi verdade
Vou rebuscando,
Fundo nas minhas memórias
P'ra riscar você da minha história

"Memórias", Leonardo

terça-feira, 10 de julho de 2007

Devagar

Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

"Meu Amor, Meu Amor", José Carlos Ary dos Santos

Amor por Nós



In two more years, my sweetheart, we will see another view
such longing for the past for such completion
What was once golden has now turned a shade of grey
I've become crueler in your presence

They say: 'be brave, there's a right way and a wrong way'
This pain won't last for ever, this pain won't last for ever

Two more years, there's only two more years
Two more years, there's only two more years
Two more years so hold on

You've cried enough this lifetime, my beloved polar bear
Tears to fill a sea to drown a beacon
To start anew all over, remove those scars from your arms
To start anew all over more enlightened

I know, my love, this is not the only story you can tell
This pain won't last for ever, this pain won't last for ever

Two more years...

You don't need to find answers for questions never asked of you
You don't need to find answers

dead weights and balloons
drag me to youdead weights and balloons
to sleep in your arms
i've become crueler since i met you
i've become rougher, this world is killing me
we cover our lies with handshakes and smiles

we try to remember our alibis
we tell lies to our parents he hide in their rooms
we bury our secrets in the garden
of course we could never make this love last
i said of course we could never make this love last
the only love we know is love for ourselves
we bury our secrets in the garden

"Two More Years", Bloc Party

domingo, 8 de julho de 2007

Jazigo

Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n'alma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai! não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

"Não te amo", Almeida Garrett

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Beijo Que Não Dei

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

"Os Versos Que Te Fiz", Florbela Espanca