sábado, 11 de fevereiro de 2012

Agonia do crepúsculo

Esbatia-se a noção do tempo.
Tudo era presente e intemporal
porque o tempo não existia para as palavras,
para as rosas e para os beijs. Para nada.
Demorava-me na muralha a escrever
retóricas cartas de amor, insuportáveis,
e a comer gelados de baunilha
enquando a desordem do mundo
se instalava na minha cabeça
entontecida pelos tumultos da idade,
pelas dores do corpo em crescimento.
Se alguém me falava em morte,
eu só pensava na agonia do crepúsculo
e na sonolência envelhecida das violetas.
Em mais nada. O sentido da morte
chegou depois, sob a forma temível
de uma clareira queimada pela lava.
Cessou, assim, o ciclo das perguntas
e as respostas tornaram-se definitivas e fatais.

José Jorge Letria

Sem comentários: